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O diário das tartarugas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.05.16

 

 

Este é o título original de um filme de 85 com a Glenda Jackson, o Ben Kingsley e o Michael Gambon. Porque foi este filme que me chamou hoje... é que não sei.

Este rio sem regresso fala muito de liberdade (palavra gasta), de amor maternal, de amizade. Não será essa a fórmula perfeita para o Dia da Mãe?

 

Esta amizade surge a partir de um ponto comum e de um local específico: o aquário das tartarugas gigantes no zoo de Londres. Ambos solitários e ambos fascinados pelas tartarugas e por uma ideia que começa a germinar: libertá-las no mar. Este plano concretiza-se com a ajuda inestimável do tratador. Instruções precisas sobre as condições de transporte, caixas de madeira com determinadas medidas, abertas em cima, paragens periódicas para as brindar com baldes de água por cima, instruções que cumprem à risca.

 

Paralelamente, o filme revela-nos a vida quotidiana, para uns aterradora porque inimiga da criatividade, para outros pela terrível solidão. 

 

Seja em que idade for, um plano como este, em que se beneficia a vida de alguém, e aqui não são apenas as tartarugas, mas todos os envolvidos na aventura, é sempre bem-vindo.

 

Glenda Jackson é uma actriz muito especial. Ainda não estava a navegar neste rio. Assim como Michael Gambon e a sua voz profunda.

 

 

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publicado às 11:18

Excesso de bagagem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.11

 

Nas Nuvens deixou-me perplexa. Construção em documentário, interacção de personagens muito realista e verosímil. O nosso herói preconiza a simplificação da existência pela libertação do excesso de bagagem que vai desde as tralhas inúteis aos relacionamentos e compromissos. No final (do filme) sofrerá um rude golpe que o confrontará com a organização da sua vida. 

 

Muito actual no tema (os despedimentos de pessoal), na rapidez e eficiência dos resultados a apresentar nas organizações, na forma fria e artificial como as empresas tratam os seus recursos humanos, como esquecem a sua dimensão humana.

Muito actual na forma como se organizam as vidas, quase incompatível com a atenção e a tranquilidade que os relacionamentos requerem. Adiar a estabilidade, o medo do que isso significa. O nosso herói, adolescente tardio, sofre esse conflito, o desejo de um ninho, a nostalgia desse ninho, e o desejo de nunca parar, de debicar alegremente a vida. E no entanto, será ele a acalmar o pânico do noivo da sobrinha na manhã do casamento.

Está prestes o nosso herói a sofrer um rude golpe na sua auto-estima e valor próprio: a mulher que pensava estar sintonizada com ele na possibilidade de um ninho algures entre viagens aéreas vê-o como um intervalo, umas mini-férias da família. George Clooney consegue transmitir toda a ansiedade e a decepção nesse telefonema breve: Pensava que querias o mesmo, diz-lhe ela. Ele perde a voz por momentos. Magnífico.

 

Nas Nuvens é também um exercício fundamental sobre a loucura das organizações (empresas, instituições, etc.), a forma como organizam o trabalho e tratam os seus recursos humanos. Vejam e revejam esses desabafos emocionados de pessoas simples e comuns na reunião do despedimento. Como verbalizam ali o essencial sobre si próprios, o seu valor próprio, e as coisas para si fundamentais: o amor e a família. A sua humanidade.

 

Outro filme sobre excesso de bagagem é O Turista Acidental. O nosso herói mantém esta cultura no trabalho que exerce: escreve sobre viagens de negócio sem ser tocado pelas diferenças culturais.

 

Um filme sobre laços familiares de dependência mútua, em que tudo parece funcionar em simbiose mas em que um elemento assume o papel maternal. Um drama - a perda do filho - coloca o casal na depressão e na incapacidade de virar a página. O nosso herói adormece as emoções e o desespero no trabalho, mas a mulher não o consegue fazer e ilude-se na necessidade de partir. O espaço qiue deixa ao nosso herói torna-se na sua possibilidade de sentir finalmente a dor, as emoções reprimidas.

 

O filme está construído de forma muito inteligente, como um guião turístico de viagens para homens de negócios, só que em vez de lhes propor conhecer os locais e as suas especificidades, defende-os desse confronto. 

A minha cena preferida é a do nosso herói a pegar na mão do miúdo frágil, filho da nova amiga, enquanto o guião do livro refere que um viajante pode ser surpreendido com um novo item na sua bagagem.

Mas há também a cena do abraço reconfortante, que é como chegar a casa. E o nosso heroi chega a casa da forma mais improvável possível.

Interessante observar no filme duas atitudes completamente diversas perante os desafios da vida: o nosso herói procura defender-se da vida e dos outros, a nova amiga aproveita todas as oportunidades para viver novas experiências. Trata-se de um encontro feliz, a possibilidade de mudar a bagagem.

 

 

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publicado às 10:54

As encruzilhadas da vida e a magia da atracção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.11.10

 

Duas surpresas cinematográficas: As Confissões de Schmidt e A Maldição do Escorpião Jade. Dois filmes no mesmo dia, num daqueles canais-que-passam-filmes. Que resisti por diversas vezes a ver, vá-se lá saber porquê. Bem, As Confissões de Schmidt não me atraiu quando saiu o trailer publicitário. A ideia de um homem zangado e amargurado, numa atmosfera cinzenta, não me entusiasmou na altura. A Maldição do Escorpião Jade pareceu-me muito rebuscado, a começar pelo título.

 

Mal sabia eu que As Confissões de Schmidt era muito mais do que alguns dias difíceis de uma vida solitária. É a aceitação da realidade após a revolta e a tentativa de dar mesmo a volta ao filme da vida. É a visita aos locais-chave de um percurso e colocar tudo em perspectiva. É respeitar os outros mesmo que não se queira partilhar a vida com eles. É delimitar essas fronteiras para poder conviver. É render-se, não controlar a vontade de outro, apenas manter intacto o seu próprio espaço e lista de prioridades pessoais. É partilhar com quem se quer finalmente partilhar alguma coisa de verdadeiro, real, palpável, tocar uma outra vida de forma leve e benéfica. É isso afinal que ficará de Schmidt, a sua influência na vida de um garotinho africano.

A parte mais comovente do filme está nesse monólogo de Schmidt ao regressar a casa, depois dessa aventura e desse percurso, e na leitura da carta de África e no desenho de Ndugo. Mas a minha parte preferida é, sem dúvida, o discurso no casamento da filha. É com esforço e num terrível conflito interno que Schmidt decide pegar, no discurso, pela parte luminosa dos anfitriões, o noivo e os pais do noivo. Depois de ter verificado nada poder fazer para impedir o erro do casamento, resta-lhe respeitar a filha e minimizar os danos futuros. É preciso discernimento e coragem, não acham?

 

E mal sabia eu que esta Maldição do Escorpião Jade guardava lines fabulosas em ritmo frenético e numa atmosfera muito cinematográfica à anos 40, onde as mulheres eram criaturas belas e misteriosas e respondiam à letra às tiradas masculinas! Woody Allen veste muito bem o papel de um detective de uma companhia de seguros e até a, por vezes irritante, Helen Hunt, vai maravilhosamente bem no papel de colega competitiva.

A história está muito bem engendrada, digamos que já tinha saudades destes guiões criativos, mas o que sobressai são mesmo os diálogos inteligentes, cheios de ritmo, de ironia e sarcasmo, os ingredientes da atracção. A magia que pensávamos estar na hipnose, estava afinal na atracção que os dois colegas-detectives não querem assumir. Estes ingredientes vimo-los em filmes dos anos 40, o estilo sexy e misterioso, os segredos, as supostas rivalidades, as discussões, a fúria, o enganador desprezo, para logo depois caírem nos braços um do outro.

O cinema era assim, não imitava a vida real. Daí esta line fabulosa de Woody antes de beijar a Helen: Antes de acordarmos para a vida real... E têm direito a fogo-de-artifício e tudo! Woody Allen gosta muito de jogar com o sonho e a vida real nos filmes, é um jogo duplo que funciona muito bem.

O momento mais fabuloso será mesmo no final. Woody pensa que a Helen ainda está sob o efeito da hipnose, mas joga a última cartada. Quando se apercebe que ela também já tinha sido desprogramada, fica sem palavras, pela primeira vez no filme todo, fica sem palavras. Esse momento é fabuloso.

 

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publicado às 17:44

Quando vemos o filme antes do livro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.10.10

 

Como prometido, aqui vai: o filme Disgrace é uma adaptação sóbria e fiel. O protagonista vestiu bem o papel. A nova África do Sul está bem retratada.

Mas o livro é um outro filme que se liberta das imagens da adaptação, embora seja uma boa adaptação. Coetzee consegue uma quase cumplicidade com o leitor que não existe no filme.

Acompanhamos este homem de meia idade, a sua solidão irremediável, este espaço-tempo já não é o seu, não há lugar para um erudito na nova África do Sul.

Agarra-se às rotinas. Sim, a importância das rotinas aqui tão evidenciada. Rotinas para manter a sanidade mental, rotinas para manter a dignidade, rotinas para manter a própria vida.

Os dias desenrolam-se penosamente, depois quase em sonho, como se a alma voasse para longe, não se sujeitar às novas regras hipócritas, assumir a culpa, recuperar o tempo perdido.

A construção narrativa é inteligente, vemos tudo pelo olhar deste homem, percebemos a sua sensibilidade a cada descoberta dolorosa. A filha lembra-lhe o seu próprio egoísmo, o egoísmo do impulso do desejo, de que gostaria de se libertar. No filme isto está simplificado, no livro há a procura honesta do perdão dos pais da aluna.

Não diria que é uma narrativa propriamente dita, ficamos suspensos no tempo-espaço, capturados, como ele, numa atmosfera estranha de insegurança e receio. Também não diria que o livro é visual, é mais psicológico, sociológico, filosófico.

Sim, o que está mesmo genial, a meu ver, é a sua visão do novo país, sem rodeios, sem preconceitos, a procura da verdade sobre o antes e o depois, e o caminho previsto. É impossível não sentir que esta realidade também é a nossa. O antigo dá lugar ao novo, e é sempre mais pragmático, agreste, inculto.

Não admira vê-lo perder a esperança, não se ilude, apenas deseja poder ajudar a filha a viver num lugar que já não a quer mas que ela insiste em considerar seu.

Este homem sem ilusões mantém a ironia, a ironia ajuda a viver. Aceita a descida aos infernos, de forma filosófica, desce esses degraus como se isso estivesse previsto, e aprende as lições da vida. Vemo-lo finalmente a levar os cães abandonados e adormecidos na clínica veterinária, para a incineradora do hospital, tentando preservar a sua dignidade até ao fim.

Se há autor que nos revela o encontro entre o sensível e o pragmático, é este. Vale a pena acompanhar esta desgraça, porque é de desgraça mesmo que aqui se fala, de certo modo a desgraça universal.

 

 

 

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publicado às 23:38

Efeitos colaterais da lua cheia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.03.09

 

Mais do que uma comédia romântica, Moonstruck é uma inspiração, a meu ver, para quem desistiu de arriscar qualquer relacionamento, porque estão todos condenados ao fracasso ou porque não se tem sorte. Esta é a convicção de uma viúva que trabalha como contabilista e vive no casarão dos pais. (E este é o papel da Cher, sem dúvida!)

Moonstruck é igualmente uma fonte riquíssima de lines cómicas, do início ao fim. Animaram-me muitos dias cinzentos. Tantas vezes revi este filme, que acabei por memorizá-las. E penso que ainda as sei de cor.

 

Estas personagens representam alguns tipos de comportamento da comunidade italiana mas, na sua essência, são universais.

A solidão assumida e desencantada de algumas mulheres.

A crise masculina da meia-idade e a conquista de mulheres mais jovens ou mais fogozas.

A mulher traída e negligenciada.

O solteirão menino-da-mamã.

A mãe possessiva e egoísta.

O jovem sensível e revoltado.

O patriarca que se sente confuso com tantas alterações emocionais e afectivas na família.

O casal de meia idade que mantém a paixão e a alegria da juventude.

 

E ainda não cheguei à lua cheia!

 

Voltemos então ao início:

Uma viúva trintona (Cher) janta num restaurante italiano com o namorado, um solteirão menino-da-mamã. Ela própria já assume um papel maternal com este homem. Lá pela sobremesa, ele resolve declarar-se. Ela exige que se ajoelhe. E isto em pleno restaurante. Ele obedece. Ela insiste, refilona: Where is the ring?

Ele improvisa e retira o seu próprio anel do dedo mínimo. Terá de servir por agora.

Ela acompanha-o ao aeroporto. Ele vai à Sicília ver a mãe que está nas últimas... (em breve saberemos que a mãe ficou nesse estado ao saber que o filho ia casar).

Ela dá-lhe conselhos maternais. Ele aceita-os naturalmente. Despedem-se.

Ela fica a ver o avião partir. Ao seu lado está uma velhinha aparentemente inofensiva, vestida de escuro. E diz-lhe que acaba de lançar uma praga sobre o avião para que caia no oceano. É que no avião segue a sua irmã, que lhe roubara o homem que amara na juventude, e que agora até lhe confessara nunca ter gostado dele. Ela não se deixa impressionar, é uma mulher prática: I don't believe in curses...

 

Ela volta a casa, encontra o pai na cozinha e dá-lhe a grande novidade. O pai nem quer acreditar que ela quer casar de novo e logo com aquele big baby!

Vão até ao quarto contar a novidade à mãe (fabulosa Dukakis) que abre os olhos quando os vê entrar e num queixume pergunta: Who's dead?

E o mote está dado. Sempre em crescendo, os acontecimentos precipitam-se, acompanhados por uma magnífica lua cheia!

 

Quem poderia sequer imaginar que um simples convite de casamento, ao único irmão do namorado, iria despertar nela a paixão e revelar-lhe mesmo uma dimensão do amor que nunca tinha vivido? Esta cena é mesmo impressionante! Um jovem atormentado, porque perdera a mão e a noiva e tudo em sequência... e que por toda essa desgraça ainda culpava o irmão... I lost my hand! I lost my girl! I lost my life! And my brother Johnny is getting married! Sim, um jovem sensível e teatral, que mora por cima da padaria onde trabalha e que ouve ópera a toda a hora.

Enquanto ela lhe prepara um bife mal passado, ele coloca o disco a tocar. Ela olha-o tranquilamente a comer com apetite, this is good, e responde às suas perguntas curiosas: sim, fora casada mas teve bad luck, o marido morrera atropelado pouco depois do casamento, não, nunca casara de novo, sim, ia casar com o Johnny... Ele alerta-a para o erro, fora por causa do irmão que perdera a mão, e ela até poderia perder a cabeça.

Bem, a partir daqui terão mesmo de ver o filme!

 

 

 

 

 

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publicado às 20:53

A solidão das pequenas comunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.07.08

 

Quando falamos em solidão, geralmente associamo-la à grande cidade. Raramente a imaginamos numa pequena comunidade. Mas é igualmente terrível. Porque a manutenção do olhar do outro é a manutenção de um único papel. E não há nada mais limitador que um único papel, condicionado pelo olhar redutor (e imutável) do outro.

 

Rachel, Rachel. Aqui Paul Newman a dar-nos uma perspectiva do universo feminino, da sensibilidade feminina. Conseguir captar essa  sensação de ter sido presa numa ratoeira, numa rotina onde a vida perdeu todo o sabor e paixão. E não ver qualquer saída.

Rachel é uma professora a entrar na meia-idade, naquela idade de transição em que se perderam os sonhos da adolescência e em que se acorda para uma rotina cada vez mais desinteressante. Rachel acorda todos os dias e fica a imaginar-se morta. Fim. Não ter de se levantar. Não haver nada que a entusiasme, que a anime a encarar outro dia igual ao anterior.

O seu papel, tecido ao longo dos anos desde uma infância a viver tão perto da morte (profissão do pai), tão perto que o pai a quer proteger da morte, e ao proteger da morte protege-a da própria vida. Sim, a morte como companhia constante da sua infância...

 

Rachel vive agora com a mãe. O seu papel, de eterna filha, de subalterna na própria casa, esse peso insuportável de viver uma vida que não é a sua, uma vida em segunda mão, numa espécie de transição prolongada, tão prolongada que ficou parada, encravada, num tempo-espaço sem vida nem amor lá dentro.

Rachel não é essa mulher que vê no olhar crítico, frio e egoísta da mãe, às vezes malévolo, para ferir e manipular. Rachel também não é essa mulher solitária, carente e vulnerável que vê no olhar do colega da escola. E igualmente não é a mulher frágil, carinhosa e próxima que vê no olhar da sua melhor amiga.

Rachel quer libertar-se dessa ratoeira de um tempo-espaço, de um papel que não lhe serve, que só serviu para se proteger da vida e do amor, sequência natural de uma infância marcada pela proximidade da morte, a paragem do tempo que foi deixando instalar-se por pena e cobardia perante uma mãe egocêntrica e limitada.

 

Só quando enfrenta essa possibilidade de uma vida própria e de um amor possível, da própria possibilidade da maternidade, é que Rachel acorda a sua energia vital.

Dois acontecimentos desencadeiam esse despertar irreversível. Um, a experiência do amor com um dos amigos de infância, que não via há anos, o gémeo sobrevivente da sua infância, a descoberta de uma outra solidão semelhante à sua, mas com outra estrutrura - a incapacidade de amar. Outro, a possibilidade da maternidade, uma vida dentro de si, alguma coisa viva!

Mas é também a única saída para escapar à alternativa natural de mulheres solitárias numa pequena comunidade: a histeria religiosa, as experiências emocionais (e de substituição do afecto autónomo), vividas em grupo e dirigidas por um Pregador manipulador, essa experiência traumática após o convite da amiga.

 

Rachel quer amar e ser amada. Aproximar-se da vida, do amor possível. E é depois da decepção da falsa gravidez que decide partir. Cena impressionante, do diálogo com a mãe, a sua afirmação como uma mulher autónoma, que quebra uma rotina e um papel que não lhe servem, e todo o passado familiar, do olhar instalado e imutável dos outros. Pela primeira vez, passa a protagonista da sua história.O futuro é incerto e é assim que deve ser. E nesse incerto desconhecido, tudo é possível, encontros, relacionamentos, afectos. A vida, afinal.

 

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publicado às 17:14

As partidas que a natureza nos prega

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.06.08

 

Aquele vento… e o rosto de Juliette Binoche virado para o vento, a sentir o vento, a ouvir o vento…

E a miúda, sempre contrariada nesse nomadismo. A querer ficar.

E além da Juliette, nómada que ajuda as pessoas com o chocolate, há ainda “os nómadas do rio”…

Ah, o chocolate… as imensas possibilidades do chocolate. “Há um sabor para cada pessoa.” Ao sabor da sua própria natureza. Haverá os amargos, os doces, os picantes, os exóticos, os inebriantes, e até o mais puritano e austero, o conde da pequena aldeia.Haverá espaço para uma mulher que o marido maltrata. Virá refugiar-se na casa de Juliette e da filha, na casa do chocolate, que aprenderá a preparar naquelas misturas estonteantes.

 

É que o chocolate ajuda a reconhecer e a libertar a natureza humana… essa imensa energia que terá de se expandir e voar…

E porque será que temos tanto receio do prazer dos sentidos? Porque nos escondemos e limitamos? Porque evitamos o desconhecido?

Estranho dilema, vivido aqui por várias personagens, mas nenhuma delas até ao limite como a avó diabética, que quer gastar os últimos cartuchos, o último fôlego, de forma feliz, numa festa, com o neto e os amigos! Mesmo que isso lhe custe partir mais cedo do que o previsto para um outro lugar… antes isso do que ser internada e ser cuidada por especialistas.

Aqui todos se libertam do medo e dos limites de uma moralidade imposta. Aqui até o conde terá uma saída feliz, mas só porque a sua natureza lhe pregou uma valente partida! Sim, com o conde tinha de ser mesmo tratamento de choque! 

 

E até o nomadismo inevitável será contrariado pela natureza desse amor real de uma comunidade. E pelo amor primordial da mãe pela filha que quer ficar.

 

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publicado às 17:59

A proximidade de tudo o que é humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.07

 

Em On Dangerous Ground é a neve muito branca que ilumina tudo. O branco onde tudo se pode escrever.

O nosso herói vive atormentado. Não se sente bem na sua alma, no papel de polícia, na cidade, na solidão, na violência. A cidade sempre escura, a esconder o crime e a decadência. Os preconceitos no olhar do outro que tornam qualquer comunicação impossível. Deixa-se levar pela sua própria violência e acaba por ser despachado por uns tempos para o longínquo norte, onde terá de descobrir o assassino de uma miúda.

O que mais impressiona é aquele branco interminável da neve. Aquela casa tão isolada de tudo. Aquela mulher tão isolada do mundo e, no entanto, o mais próxima possível do mundo. E de tudo o que é humano. Do irmão louco que lhe traz o mundo para dentro de casa e que ela protege do próprio mundo.

A casa é o refúgio, um pequeno mundo onde cada objecto tem uma história, um significado. O homem comove-se, pela primeira vez. E pela primeira vez deixa de lutar contra o mundo. Pela primeira vez chega a casa. Encontra o seu lugar.

A mulher compreende o homem desde o início. Vê melhor porque não é com os olhos que se vê o essencial. E aceita-o sem receio ou condições. Confia porque aprendeu a viver assim. Essa é a forma de o libertar da impossibilidade de comunicar.

 

 

 

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publicado às 15:36

Nada substitui a companhia de outro ser humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.12.07

All that Heaven Allows. Uma mulher na sua viuvez conformada. Vários filhos. Família típica americana dos anos 50. Uma vida aparentemente perfeita. E uma empatia que nasce, a alegria de uma companhia com alguém genuíno, livre, que coloca os afectos à frente das convenções sociais.

Os filhos seguem as suas vidas, vão para a universidade. Ela fica sozinha. O egoísmo inconsciente da juventude! É mais confortável manter a mãe condicionada ao papel de mãe, mesmo já não precisando dela como antes. Irão insurgir-se contra o afecto da mãe por esse homem mais jovem. Irão querer substituir esse afecto, essa companhia, por uma televisão.

No filme, a mulher não desiste do afecto e da companhia. Até porque aprecia a companhia deste homem… calmo, afectuoso, sensato, culto. A casa reflecte isso mesmo, um espaço que acolhe, que aconchega. É essa ideia que fica a sobressair, a de uma companhia.

Magnífica previsão da solidão actual. Substituem-se pessoas, uma companhia, por uma televisão ou por um computador. Mas já não são apenas os mais velhos, os solitários sem alternativa. Agora são os próprios jovens a preferir o computador ao contacto humano.

 

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publicado às 15:42

Morangos silvestres

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.08.07

Bergman na sua ilha, como a personagem de Saraband. Bergman poético e cruel. A solidão irremediável, primeiro porque se procurou esse espaço existencial, respirável, entre nós e os outros, depois porque já não sabemos viver de outro modo.

Bergman reabre todas as feridas, sem dó nem piedade. As mais profundas, as mais insuportáveis. E de uma forma tão poética… de uma poesia límpida, fresca, áspera, dura. Como essa língua estranha. Mas a mais estranha, a que mais magoa, o silêncio. O silêncio mortal.

Há qualquer coisa de medieval nos seus filmes. Vêm de longe, de raízes muito profundas. Talvez das origens da nossa estranha natureza. Da nossa natureza animal, vegetal, mineral. Da nossa natureza que se confunde com a natureza.

Mas os morangos silvestres… os morangos silvestres...Envelhecer, lembrar, ver o essencial, aceitar a solidão, o afastamento emocional e afectivo. Doce, doce Sjöstrom. Será sempre o meu Bergman preferido. O terror do nosso fim, da inutilidade de toda uma existência. Olhar isso de frente. Aceitar tudo isso.

 

 

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publicado às 14:53


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